Director: Carlos Fontes

 

 

 

Novas Formas de Manipulação

(Cenários Catastróficos)

 

 

As práticas de manipulação são milenares. Estão intrinsecamente ligadas à vontade de domínio. Há manipulação sempre que alguém procura controlar o conhecimento de outro tendem em vista condicionar ou alterar o seu comportamento. As formas de manipulação ligadas ao poder político são as mais conhecidas, mas não são as únicas existentes.

 

 

1. Formas Directas de Manipulação 

 

As formas manipulação mais conhecidas são as realizadas pelos regimes ditatoriais. Podemos neste caso identificar facilmente quem as faz, com que objectivos e os meios que utiliza. Trata-se de um manipulação com rosto, que coloca desde logo os cidadãos de sobreaviso em relação àqueles que as planeiam e executam. A censura, a propaganda e a violência repressiva sobre os "desviantes" são os seus meios privilegiados . 

 

Censura: a informação é manipulada não apenas tendo em vista omitir factos relevantes, mas também deformar o conteúdo da informação veiculada de modo a que a mesma se ajuste às ideias dos censores. Em Portugal a censura foi um dos instrumentos mais utilizados pela ditadura  (1926-1974) para a manipulação da opinião pública: a informação que era autorizada era previamente mutilada. A restante era simplesmente proibida. ( consultar

 

 

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Destruição pública de livros em Berlim (10 de Maio de 1933)

 

 

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Na Alemanha nazi (1933-1945) ficaram tristemente célebres a destruição pública de milhões livros, mas também de obras de arte de autores considerados "degenerados" pelo regime hitleriano.

Em 1937, os nazis organizaram em Munique uma exposição de "arte degenerada", para mostrarem aquilo que os alemães não podiam gostar. Hitler fez questão de visitar a exposição.

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Propaganda:

 

a informação é forjada de forma provocar a uma adesão imediata a certos estímulos, explorando para tal as emoções ou os medos das pessoas.

 

Durante a 1ª. Guerra Mundial (1914-1945), as técnicas de propaganda aos serviços dos Estados tornaram-se enormes máquinas de mobilização de massa, dotadas de enormes recursos técnicos, que foram depois eficazmente aplicados e desenvolvidos pelos diferente regimes totalitários.     

 

Em Portugal, uma das primeiras acções da ditadura (1926-1974) foi a de criar importantes orgãos de propaganda do regime ( consultar ).  O regime de nazi, foi contudo aquele mais desenvolveu as técnicas de propaganda  e as aplicou com grande êxito.

 

No Congresso de Nuremberg, em 1936, Hitler afirmou: "a propaganda conduziu-nos ao poder, a propaganda permitiu-nos conservar depois o poder, a propaganda, ainda, dar-nos-á a possibilidade de conquistar o mundo".  Uma das suas acções mal conquistou o poder foi criar um Ministério da Propaganda, dotando-o de enormes recursos. A propaganda nazi assentava em ideias muitos simples, que podia ser facilmente apreendidas pelas pessoas. Estas ideias apelavam à emoção, estimulando reacções de medo, ódio, violência e desejo de vingança.   

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2. Formas Difusas Manipulação

      

Os processos de manipulação da informação são todavia mais amplos, e estão largamente disseminados nas sociedades democráticas ocidentais, utilizando-se técnicas muito sofisticadas, mas não menos eficazes, nomeadamente porque os cidadãos estão desprevenidos.

 

Para analisarmos estas formas difusas de manipulação temos que ter em conta algumas condições históricas que as possibilitaram e as tornam muito poderosas. 

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a ) Condições Sociais.

As actuais sociedades urbanas nasceram da desagregação das sociedades rurais onde predominavam fortes laços tradicionais (familia, comunidade), contribuindo para o crescente isolamento dos individuos. Sem ligações a famílias, comunidades ou a nenhum território em concreto, tornaram-se desta forma extremamente permeáveis aos processos de manipulação. Não tendo ninguém com quem discutir a informação que recebem tendem a acreditar no que dizem os meios de comunicação. 

 

b ) Destruição dos Espaços Públicos.

Esta profunda transformação social foi acompanhada pela destruição daquilo que se chama espaço público , os lugares onde os encontros entre os cidadãos. Era nestes espaços públicos que se construía a Opinião Pública.

c ) Meios de Comunicação.

 Com o crescente isolamento surgiu também a necessidade de se encontrar meios de comunicação entre os indivíduos atomizados. É neste contexto que foram criados e desenvolvidos os novos meios de comunicação de massa: 

 

- Jornais. Ainda ligada aos espaços públicos, marca a transição para os novos processos de comunicação de massa. 

- Rádio. Recepção privada, fora dos espaços públicos

- Cinema. 

- Televisão. Recepção maioritariamente privada, fora dos espaços públicos. 

- Internet

- Telemóveis, etc. 

 

d) Informar ou Fabricar Opiniões ?

Os novos meios de comunicação, promovidos e controlados pelos grandes grupos económicos, não se limitaram todavia a serem simples instrumentos de comunicação, passaram também a produzir opiniões de acordo com os interesses de quem os controla estes meios.

 

Dado o seu impacto social desde muito cedo começaram também a produzir ( ou a forjarem ) a opinião pública ... dos cidadãos. 

 

A comunicação social nas sociedades democráticas possui uma enorme influência sobre as pessoas, não apenas consegue dizer em que devem pensar, mas também como devem pensar sobre isso . As mais sujeitas a esta influência são naturalmente as que possuem menores recursos intelectuais ou menos preparadas para lidarem com os média (televisão, rádios, jornais, etc)   

 

e) Ilusão de Discussão Pública.

 Para tornar convincente a opinião que produzem, como sendo a opinião dos cidadãos, os jornais ou a televisão utilizavam várias técnicas para criar a ilusão de que são meros instrumentos neutrais que veiculam apenas aquilo que estes discutem e defendem. Neste sentido simulam debates, realizam sondagem, realizam entrevistas ao vivo, etc. Os comentadores ou pessoas que nelas aparecem são frequentemente apresentados como os representantes dos cidadãos. Nada é dito porque foram escolhidos uns e não outros. A ideia é  que o leitor ou o espectador tenha a ilusão que aquele que fala é o representante de todos os trabalhadores, ou de todos os patrões, os estudantes, as mulheres, etc.

 

f) Diversão.

Uma das formas actualmente mais eficazes de manipular os cidadãos é através da diversão (distração). Quando ocorrem certas situações poucos favoráveis a quem controla os diferentes poderes, os orgãos de comunicação social transformam-se frequentemente em orgãos de distração: a produção de informações  aumenta sem qualquer critério de relevância política, de modo a fazer passar despercebidos factos incómodos ou a torná-los a-significantes pelo excesso de informação.                                                                       

 

 

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Televisão: Um Perigo para a Democracia ?

Karl Popper, no início da década de 90, acusou a televisões de estarem a destruir os regimes democráticos. Afirmando:

1. A finalidade das televisões não é a educação ou a melhoria das pessoas, mas apenas o lucro. 

2. Aquilo que oferecem às pessoas não é o que é melhor para a sua educação, mas apenas aquilo que as seduz e as mantém presas aos ecrans de televisão, fazendo desta forma subir as audiências. A receita que utilizam é sempre a mesma: sexo, violência, sensacionalismo, etc. Uma receita que cansa, por isso mesmo obriga-as a um reforço continuo das suas doses diárias (mais sexo, mais violência, mais sensacionalismo...). 

3.Com o aumento do número de canais de televisão, cresceu também o número de pessoas mediocres ou gente sem escrúpulos ligadas à produção de programas televisivos. Gente que apesar da  sua enorme influência social, trabalha na mais completa impunidade e sem qualquer controlo democrático.

4. As pessoas mais vulneráveis a esta influência nefasta da televisão são as que possuem um nível de formação e maturidade insuficiente para estabelecerem uma distinção entre a ficção e a realidade.

Carlos Fontes    

 

A importância dos meios de comunicação 

Os meios de comunicação tornaram-se hoje palcos privilegiados da disputada política. Acontece que os políticos não estão agora sós, mas confrontam-se agora também com correntes de interesses organizadas que actuando através dos jornalistas e outros agentes, procurando apresentar uma dada opinião como a Vontade da População.   

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A única forma dos cidadãos evitarem cair nestes processos de manipulação é tornaram-se mais vigilantes em relação às instituições democráticas e aos orgãos de informação. adoptando uma atitude de permanente reflexão crítica sobre a informação que lhes é fornecida. Não há outra saída.

 

 

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Exemplos de Manipulação 

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Manipulação ( 1 )

Os meses que precederam a ocupação do Iraque, em  19 de Março de 2003, assistiu-se a uma campanha de manipulação da informação a nível mundial. 

As principais agências de comunicação social divulgavam informações provenientes das mais diversas fontes e origens todas num único sentido: sustentarem a tese dos EUA de que a o ditador do Iraque possui armas de destruição maciça .

Em vários países, como Portugal, muitos jornalistas e especialistas em questões militares apoiaram activamente esta campanha preparando a opinião pública para aceitar a inevitabilidade  de uma intervenção no Iraque, a fim de acabar com os arsenais e a produção das alegadas armas de destruição maciça.

Um ano depois da ocupação, os governos dos EUA e da Grã-Bretanha  reconheciam que estas armas não existiam e que haviam enganado a opinião pública. Acusaram na altura os seus serviços de espionagem de lhes terem fornecido de informações forjadas. 

Objectivo da manipulação: o controlo das enormes reservas de petróleo existentes no Iraque ( consultar ). 

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Estação de comboios de Atocha (Madrid). Imagem do brutal atentado terrorista que matou dezenas de pessoas que seguiam neste comboio. 

Manipulação ( 2  )

Logo após o atentado de Madrid de 11 de Março de 2004, o governo espanhol  procurou deliberadamente manipular a comunicação social, veiculando informações no sentido de fazer crer à população que a ETA era a autora do atentado ( A ETA é uma organização fundada em finais dos anos 50 do século XX e  que luta pela Independência do país Basco (Euskadia). O próprio primeiro-ministro da altura (José Maria Aznar) pressionou directamente directores de jornais para veicularem uma informação que sabia ser falsa. 

Objectivo da manipulação: vencer uma disputada eleitoral 

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  Manipulação ( 3) 

O incêndio  do Reichstag (Parlamento da Alemanha), em 1933, prontamente atribuído por Adolf Hitler aos judeus, foi o pretexto para se difundir a caça aos judeus, eslavos e ciganos neste país.

A imprensa alemã, em grande parte dominada pelos nazis, estimulou de forma continuada o ódio a estes grupos sociais e preparou o clima social para a aceitação do seu extermínio.

Objectivo da manipulação:  a conquista total do poder pelos nazis.

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  Manipulação (4)

Em todas as épocas , as guerras foram sempre momentos de intensa propaganda. Primeiro que tudo é necessário convencer as populações da necessidade de combater na frente de batalha. O inimigo é ridicularizando e diabolizado,  sendo desmontados os seus discursos.

Na Iª. Guerra Mundial (1914-1918), a propaganda, foi assumida como um poderoso meio de guerra, capaz de  desmoralizar o inimigo e atrair potenciais aliados para a guerra.  A imprensa e os cartazes foram largamente usados pelos Aliados,  na propaganda e contrainformação.

Cartaz Britânico (cerca de 1914). Colecção Imperial War Museum, Londres.

"Cena de ódio. Este cartaz britânico contra a guerra submarina alemã contém os elementos essenciais da propaganda: ridicularizar o inimigo (o comandante do submersível massacra a língua inglesa com um sotaque germânico caricaturado), demonizá-lo ( é sanguinário, ataca navios desarmados e descende dos hunos de Átila) e desmontar o seu discurso (quando o inimigo fala de liberdade de navegação nos mares o que na verdade quer é o direito de afundar tudo o que flutue). De facto, nos primeiros tempos da guerra do mar os submarinos alemães continuaram a seguir o protocolo a época napoleónica: começavam por emergir, intimavam o navio perseguido à rendição e só o afundavam depois de a  tripulação o abandonar e estar a uma distância segura. Esta prática foi abandonada depois de navios mercantes britânicos fortemente armados responderem à intimação a tiro de canhão, afundando alguns submarinos alemães, vulneráveis por não estarem submersos", Rui Cardoso, expresso, 9/11/2013

 

  Manipulação ( 5 ) 

Em 1801 a Espanha usurpou um importante concelho português - Olivença. Durante dois séculos a população que não foi exterminada tem vido a sofrer uma brutal manipulação da sua identidade cultural. A língua portuguesa foi proibida, assim como as suas tradições. Até o nome do concelho, das ruas e das suas povoações foram alterados de português para espanhol. A própria história de Olivença  foi modificada de forma a legitimar a usurpação. Para este enorme processo de manipulação foram também aliciados muitos portugueses, que a troco de umas lentilhas participaram neste trabalho de manipulação. ( Consultar ).    

Objectivo da manipulação: omitir um etnocídio e legitimar a usurpação de um território português.

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Carlos Fontes

 

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Bibliografia

Berger, Peter; Luckmann - A Construção Social da Realidade. Lisboa. Dinalivro. 1999 

Breton, Philippe - A Utopia da Comunicação. Lisboa Inst. Piaget. 1994

Breton, Philippe - A Palavra Manipulada. Lisboa. Ed. Caminho.2002

Dorozynski, Alexandre (e outros)- A Manipulação do Espíritos. Lisboa. Assírio & Alvim. 1982

Dias, Fernando Nogueira - A Manipulação do Conhecimento. Lisboa. Vega. 2005

Popper, Karl; Condry, John - Televisão: Um Perigo Para a Democracia? Lisboa. Gradiva. 1995

Quintero, Alexandro Pizarroso- História da Propaganda. Lisboa. Planeta Editora. 1992.

Ramonet, Ignacio - A Tirania da Comunicação. Porto. campo das Letras. 1999

Saperas, Enric - Os Efeitos Cognitivos da Comunicação de Massa. Porto. Asa. 1993

Sfez, Lucien - Crítica da Comunicação. Lisboa. Inst.Piaget. 1994

Traquina, Nelson- O Poder do Jornalismo. Análise e Textos. Coimbra. Minerva. 2000

Toffler, Alvim - Os Novos Poderes. Lisboa. Livros do Brasil. 1991 

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